Protestante. E quando pensamos em reforma, somos levados a meditar sobre os acontecimentos constantes da primeira metade do século XVI na Europa Central e Países Baixos.

O resultado de tal reflexão é a conclusão de que aquela reforma satisfez plenamente as necessidades principais de implicações doutrinárias pelas quais vários setores da igreja ocidental já vindicavam muito antes de Lutero, Calvino e outros mais de seu tempo.E ainda aliada a essa conclusão acima, vem-nos também, a ideia de que a igreja precisa de outra reforma. Mas a grande implicação atual diz respeito ao alcance eclesiástico material desse posmoderno invólucro evangélico de tantas denominações. Como seria possível uma reforma que atingisse a todos os evangélicos no seio da multifacetada igreja de nossos dias? E que tipo de reforma essa igreja precisaria?

Bem, talvez, se fóssemos responder adequadamente a essas perguntas, certamente levaria muito tempo, seríamos demasiadamente prolixos e, ainda assim, não conseguiríamos contemplar satisfatoriamente, não só a estes, mas a outros questionamentos não apontados aqui. Contudo, ao partirmos da premissa de que a igreja do Senhor Jesus é apresentada pelas Escrituras como um corpo, patenteando iniludivelmente que ela é um organismo vivo, formado, por conseguinte, de seres humanos regenerados, resultando daí, que tal organismo vivo tem a sua legítima expressão, não em instituições, mas em pessoas; penso que a urgente reforma reclamada pelas desordens doutrinárias dos dias atuais, envolve impreterivelmente, as comunidades locais. Isto é, as nossas igrejas locais precisam reafirmar o compromisso com as doutrinas reformadas que pregamos e nas quais cremos, e isso parte apriori, de seus pastores e presbíteros, em nosso caso, como presbiterianos que somos. Contudo, há aqueles que nunca se comprometem verdadeiramente com os princípios defendidos pela Igreja Presbiteriana do Brasil. Esses tais são capazes de usar dos recursos estilisticos da impessoalidade, recheados de sofismas, a fim de enganarem e de convencer os menos cautos e captar a credibilidade deles. Como resultado, infelizmente, há muitos pastores e líderes sem boa formação doutrinária de cunho reformado, ainda que, consigam passar essa impressão para os seus concílios, conforme já dito. Daí, crer eu que uma reforma pastoral e presbiterial seja necessária e imperativa em virtude desse tipo de postura destoante do que é confessional e adotado pela IPB.

Entretanto, para mim seria muito fácil escrever esta reflexão enfocando o tema acima sem demonstrar claramente meu posicionamento sobre o assunto em questão, que é a necessidade de uma nova reforma. Ora, essa expectativa de reforma viceja em mim porque desde a infância sou um crente em Jesus Cristo e creio plenamente na proposta transformadora do evangelho pregado por Ele, continuado por seus apóstolos e que Ele designou que eu também o pregue. Entretanto, cometo muitas falhas quando desatento ao que prego, bem como, quando minha mente resiliente pensa em mapear aquilo que me é apresentado pelo evangelho, fazendo-me pusilanimimente esfriar na fé, no exercício do amor, na freqüência à adoração comunitária do povo que se congrega; enfim, quando me assemelho "completamente frio" e sem "motivação" para praticar as verdades em que creio, e pelas quais fui conquistado com grande paixão. Quando tal quadro se revela em minha vida, não há outro jeito, senão a urgente ocorrência de uma reforma geral em minha vida de crente.

O fato é que, se reformas de bens físicos ou institucionais já é tão difícil, que diríamos sobre reforma espiritual? Sobre reforma de nosso prisma, disposição e desígnio errados com que às vezes vivemos os ensinos do evangelho? E o que falar de pastores que habitualmente pregam o que não vivem? A resposta me força ao esclarecimento da principal implicação relevante que uma reforma exige. Mudança. Só que, mudança não é algo fácil de acontecer. Por mais que imaginemos que somos flexíveis e abertos ao trabalhoso processo de mudança de hábitos, costumes e estilos apreendidos e corporificados de forma errada, que imprimem valores e conceitos distorcidos em todas as áreas de nossa vida, carecterizando por fim, o pecado; ou seja, para que a mudança produza os resultados almejados, preciso, como crente e pastor que sou, desvencilhar-me de tudo o que está errado, sobretudo, estar disposto a construir uma nova base para ações futuras que promoverão a transformação de minha espiritualidade neste particular, e no que quero para a vida das pessoas a quem Deus me confiou para pastorear. Porém, não é suficiente falar, ou até ter vontade de ver acontecer tal mudança. Preciso me esforçar incansavelmente, (já que não tenho livre arbítrio), mas dentro dos limites da liberdade da vontade que Cristo me deu, conforme leio que “Ele me chamou para a liberdade, mas que não devo usar dessa liberdade para dar ocasião à carne” (Gl. 5.13). Nesse sentido, num primeiro momento, a reforma que urge em nosso meio é um acontecimento que promova mudança pessoal. Portanto, que eu queira que comece em mim e que nunca pare. Seria equivocado e ilusório pensar que Deus me vocacionou e capacitou para pregar, para falar do amor dEle, sem viver as virtudes do evangelho que anuncio. Que tipo de pastor eu seria? Então, não admito que meu coração se feche para amar a qualquer irmão. E mesmo que seja alguém que não consiga me amar e ter comunhão comigo, o mínimo que deve fazer, é orar por ele, e orar sem imprecações, mas com intercessão compassiva e misericordiosa.

Por fim, reforma implica também, que sempre há alguma ação a ser assumida para que evitemos que determinados comportamentos nossos adentrem a igreja, envolvendo-a sutil e sorrateiramente, fomentando nela náusea e descrédito acerca de seus pastores. Permitamo-nos identificar antecipadamente os prejuízos que logo cairão pesadamente, como pedras sobre nossas cabeças, ferindo-nos seriamente em nossa vida espiritual, tanto coletiva, quanto na individualidade, se não decidirmos mudar. Portanto, e antes de tudo, é preciso haver uma disposição séria de cada um de nós, a fim de nos levantarmos e começarmos a urgente reforma espiritual de que precisamos. Toda reforma começou com e pelos líderes do povo de Deus. E penso que nem preciso dizer que temos muitos recursos à nossa disposição: O recurso da ação poderosa e eficaz da Palavra viva da Escritura Sagrada que pregamos; o recurso do retorno à vida de oração individual e coletiva; o recurso da comunhão, o recurso do respeito e consideração mútuos a fim de nos estimularmos ao amor e às boas obras do Senhor, e o recurso do desejo de estarmos juntos com aqueles a quem amamos e com os quais compartilhamos de uma mesma fé evangélica, vocação e ofício, e o recurso da política eclesiástica devidamente conformada com os manuais pertinentes, aliada à ética sadia que é desprendida de demandas pessoais escusas, viciosas e ímprobas. Por isso, repito: Quando a Reforma Protestante estava em plena efetivação, os reformadores já pregavam a necessidade dela nunca parar, visto suas proposições não se limitarem a reformar uma instituição religiosa, mas promover vida nos estilos e modelos adotados por uma religião corrupta, moral e espiritualmente, que gostava de coisas mortas, enfim, sem vida. E justamente por não conceberem uma reforma estática, que seguidores ainda próximos adotaram o grande lema: "Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est". Ou seja, igreja reformada sempre se reformando. Então, é patente que falamos de uma reforma espiritual e moral. Mas ela, já que é um processo dinâmico, só começará a acontecer quando tu e eu nos dispusermos para que comece em nós e a partir de nós. Daí pra frente, naturalmente ela atingirá paulatinamente a vida de outros irmãos que são sujeitos inseridos no mesmo ambiente meu e teu. Amém!

 Rev. Neurival da Silva Feitosa